
Apesar do uso da trincheira no meio militar ser antiga, foi com a metralhadora na Primeira Guerra Mundial, que se praticou, pela primeira vez, uma guerra de trincheiras, pois poucos generais e políticos haviam se dado conta do mortífero desenvolvimento das armas modernas. Como a maioria dos chefes militares dava uma grande importância à utilização da infantaria em ataques, e diziam que as precauções defensivas eram desnecessárias se fizessem ataques maciços e suficientemente rápidos, muitos soldados morreram.
Depois da batalha do Marne em Setembro de 1914, por exemplo,os alemães foram forçados a retirar até ao rio Aisne. Falkenhayn ordenou que os seus homens cavassem trincheiras que lhes dariam proteção contra o avanço das tropas francesas e inglesas. Os "aliados" rapidamente perceberam que não conseguiam ultrapassar esta linha e começaram também a cavar trincheiras.
As trincheiras tinham habitualmente 2,30 metros de profundidade e 2 metros de largura. Nos parapeitos das trincheiras eram colocados sacos de areia (os "parados") para absorverem as balas e os estilhaços das bombas. Numa trincheira com esta profundidade não se conseguia espreitar, por isso, havia uma espécie de elevação no interior conhecida como "fire step".
Estacionados em virtude de um grande equilíbrio no confronto entre os países envolvidos no conflito, os exércitos se estabeleciam nas trincheiras por longos períodos. Conseqüentemente as trincheiras acabaram se tornando cenário de muitas histórias de sobrevivência e de morte. Entre as principais causas de morte se encontram a falta de higiene e o contato freqüente com ratos e insetos, além do frio e de todo o stress provocado pelo longo período em que ficavam parados nas trincheiras e pela possibilidade de serem alvejados por seus inimigos.
Muitos homens que morriam nas trincheiras eram enterrados onde caíam. Se a trincheira ficava muito cheia eram feitos novos buracos para que fossem colocados os corpos. Eventualmente, quando se iniciavam preparativos para a ampliação do espaço de circulação dos soldados nas trincheiras, era comum que alguns dos corpos fossem encontrados, em avançado estado de decomposição. Outro problema sério encontrado nas trincheiras eram os ratos, atraídos pelos cadáveres e pelos alimentos estocados nas guarnições. A quantidade de ratos aumentava enormemente (cada casal de ratos podia ter até 880 filhotes ao longo de um ano) e, conseqüentemente, as trincheiras acabavam contando com esse inconveniente.
Alguns desses ratos cresciam muito, atingindo tamanhos consideráveis. Como haviam muitos feridos nas trincheiras, não era incomum que eles fossem atacados pelas ratazanas e, tivessem dificuldades para se proteger. Outra situação corriqueira nas trincheiras nessa estranha e desagradável relação entre homens e ratos ocorria quando os roedores se escondiam nos bolsos dos casacos dos soldados ou ainda nos sacos de dormir, causando enormes sustos, fora mordidas e infecções (o primeiro lugar que os ratos costumavam atacar eram os olhos, partindo posteriormente para o interior do corpo).
Esses ataques eram tão freqüentes que há vários depoimentos de soldados a respeito do "convívio" entre eles e os ratos, como os que seguem:
"Ratos. Havia aos milhões!! Alguns eram enormes, tão grandes quanto gatos. Vários de nossos homens acordavam e encontravam um rato se enfiando embaixo de cobertores empilhados logo ao seu lado!" (Depoimento do Major Walter Vignoles, Fuzileiros de Lancashire, Inglaterra).
"Eu não posso dormir em minha trincheira, ela está cheia de ratos. Pullman dormiu aqui uma manhã e acordou para encontrar um deles sentado em seu rosto. Eu não consigo encarar isso então eu durmo na trincheira do Newbery." (Carta do Capitão Lionel Crouch para sua esposa, sobre a vida nas trincheiras em 1917)
"Eu vi alguns ratos correndo debaixo dos casacos dos soldados, ratazanas, gordas por causa da carne humana. Meu coração ficou apertado assim que subimos para ver um dos corpos. Seu capacete caiu e rolou. O homem apresentava um rosto deprimente, com tiras de carne arrancadas; o crânio descoberto, os olhos devorados e da boca aberta apareceu um rato. " (Autor desconhecido)
"Os ratos apareciam aos milhares e viviam da riqueza da terra. Quando estávamos dormindo nas trincheiras aquelas coisas corriam sobre nós, circulavam, se reproduziam e procuravam restos de comida, com os filhotes gritando incessantemente. Não havia sistema apropriado para lidar com o lixo nas trincheiras. Milhões de latas ficavam a disposição dos ratos na França e na Bélgica em centenas de milhas de trincheiras. Durante alguns momentos da noite, podia-se escutar um tilintar contínuo das latas se movendo uma contra a outra. Os ratos as estavam vasculhando. O que acontecia com os ratos debaixo do tiroteio era um mistério, mas o seu poder de sobreviver se mantinha mesmo com as novas armas, inclusive com os gases venenosos." (Depoimento do soldado George Coppard, extraído do livro "With a Machine Gun to Cambrai").
"Se você deixasse sua comida de lado os ratos logo a atacariam. Os ratos não tinham medo. Às vezes nós atirávamos nos nojentos roedores. Mas você poderia ser punido por desperdício de munição se o sargento o pegasse." (Entrevista concedida em 1983 pelo militar Richard Beasley)
"Terra de ninguém" foi o termo usado pelos soldados para descrever o terreno entre duas trincheiras inimigas. A distância entre elas variava, mas na Frente Ocidental era, em média, de 230 metros
Era muito difícil atravessar a "terra de ninguém". Os soldados não só tinham que evitar as metralhadoras e as explosões, como tinham que ultrapassar as inúmeras barreiras de arame farpado, os detritos de material destruído ou abandonado e as crateras cheias de água e lama provocadas pelas bombas.
GÁS VENENOSO
Os gases venenosos eram conhecidos muito antes da 1ª Guerra Mundial, mas os oficiais do exército mostravam relutância em os utilizar por que os consideravam uma arma incivilizada. O exército francês foi o primeiro a utilizá-los, quando no primeiro mês de guerra dispararam granadas de gás lacrimejante contra os alemães.
Era importante ter em consideração as condições atmosféricas antes de lançar um ataque com gás. Quando o exército britânico lançou um ataque com gás em 25 de Setembro de 1915, o vento soprou contra o rosto das tropas britânicas mais avançadas provocando pesadas baixas... Este problema foi ultrapassado em 1916 quando se começou a utilizar a artilharia pesada para lançar bombas de gás a grande distância.
Uma das desvantagens do uso de gás cloro era que, ainda que provocasse a morte, esta só acontecia bastante tempo depois e, entretanto, o soldado continuava em condições de combater. Por esse motivo começou-se a usar fosgénio. Apenas uma pequena quantidade impossibilitava o soldado inimigo de continuar a combater e provocava a sua morte em 48 horas.
Foi estimado que os alemães usaram 68 000 toneladas de gás contra os soldados aliados, mais do que o exército francês (36 000 toneladas) e o exército britânico (25 000 toneladas) juntos. Estima-se que 91 198 soldados morreram em resultado de ataques com gás e 1 200 000 foram hospitalizados. O exército russo foi o que mais sofreu com este tipo de guerra com cerca de 56 000 mortos
Histórias da trincheiras
"falta-nos praticamente tudo. Aprendi cedo a dependurar o pão num arame para o pôr fora do alcance dos ratos, a dormir com os sapatos apertados, porque tentar calçá-los depois de os tirar era uma ilusão, a dormir enrolado num capote molhado, dormir 4 horas no meio de algazarra, de gritos humanos, de cheiros pestilentos, mas a dormir." (6)
"E a cada hora que passa tudo se torna mais turvo: os dias de combate, o fogo de artilharia, a morte. "A alguns passos de nós, no fundo da trincheira, jaz um corpo. É de um oficial subalterno; está semi-enterrado; só se vê a cabeça, um ombro e um braço com a mão em gancho. Está ali desde a véspera, o braço retesou e ergueu-se, e naquela mão, naquele braço, se engancham e tropeçam todos os que vão e vêm por aquela passagem estreita. Era preciso cortar aquele braço ou afastar o corpo. Ninguém teve coragem para tal" (7)
Mais além, noutro lugar, "o bombardeamento com gases tornou-se mais intenso. (...) Daí a pouco não se via senão gente sufocando, tossindo, com o nariz e as goelas queimadas e os olhos irritados lacrimejando.
- Ponham as máscaras – gritava-se." (8)
Não era possível aguentar. Vieram os motins. As deserções. As canções proibidas, como essa enigmática "canção de Craonne", que tem a música da noite, do silêncio e da chuva para dar o timbre às emoções de soldados exaustos, sem réstia de esperança no fim de uma guerra infame, numa dolorosa despedida à vida, ao amor e às mulheres.
Ao longo da guerra, caíram em combate dez milhões de homens. Muitos ficaram mutilados e doentes. Outros desapareceram no meio de lamaçais. "Era terrivelmente óbvio que dezenas de homens com ferimentos sérios se tinham arrastado até outros buracos provocados por granadas, para conseguirem alguma segurança, e agora a água que caía em volta deles, imóveis, estava a afogá-los lentamente. Não podíamos fazer nada para os ajudar». (9) Os seus corpos ficaram enterrados nesses campos calcinados, como o da Flandres. Mas ainda hoje, não sei bem porquê, florescem lá as papoulas...
Soldados portugueses nas trincheiras
(6) Florent Fels, in Voilà
(7) R.Cazals, Cl Marquié, R. Piniès, Années cruelles 1914-1918, in História da vida privada, direcção de Philippe Ariès e Georges Duby, vol.5,
(8) Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra

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