Este blog aborda assuntos essênciais para a construção das nossas
vidas, afinal precisamos saber de onde viemos para
descobrir quem somos e para onde vamos. Nesta edição
falaremos sobre "A Primeira Guerra Mundial", um
conflito que marcou o início de um era de
transformações.


Sejam Bem-Vindos

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

As Trincheiras


Apesar do uso da trincheira no meio militar ser antiga, foi com a metralhadora na Primeira Guerra Mundial, que se praticou, pela primeira vez, uma guerra de trincheiras, pois poucos generais e políticos haviam se dado conta do mortífero desenvolvimento das armas modernas. Como a maioria dos chefes militares dava uma grande importância à utilização da infantaria em ataques, e diziam que as precauções defensivas eram desnecessárias se fizessem ataques maciços e suficientemente rápidos, muitos soldados morreram.

Depois da batalha do Marne em Setembro de 1914, por exemplo,os alemães foram forçados a retirar até ao rio Aisne. Falkenhayn ordenou que os seus homens cavassem trincheiras que lhes dariam proteção contra o avanço das tropas francesas e inglesas. Os "aliados" rapidamente perceberam que não conseguiam ultrapassar esta linha e começaram também a cavar trincheiras.

As trincheiras tinham habitualmente 2,30 metros de profundidade e 2 metros de largura. Nos parapeitos das trincheiras eram colocados sacos de areia (os "parados") para absorverem as balas e os estilhaços das bombas. Numa trincheira com esta profundidade não se conseguia espreitar, por isso, havia uma espécie de elevação no interior conhecida como "fire step".

Estacionados em virtude de um grande equilíbrio no confronto entre os países envolvidos no conflito, os exércitos se estabeleciam nas trincheiras por longos períodos. Conseqüentemente as trincheiras acabaram se tornando cenário de muitas histórias de sobrevivência e de morte. Entre as principais causas de morte se encontram a falta de higiene e o contato freqüente com ratos e insetos, além do frio e de todo o stress provocado pelo longo período em que ficavam parados nas trincheiras e pela possibilidade de serem alvejados por seus inimigos.

Muitos homens que morriam nas trincheiras eram enterrados onde caíam. Se a trincheira ficava muito cheia eram feitos novos buracos para que fossem colocados os corpos. Eventualmente, quando se iniciavam preparativos para a ampliação do espaço de circulação dos soldados nas trincheiras, era comum que alguns dos corpos fossem encontrados, em avançado estado de decomposição. Outro problema sério encontrado nas trincheiras eram os ratos, atraídos pelos cadáveres e pelos alimentos estocados nas guarnições. A quantidade de ratos aumentava enormemente (cada casal de ratos podia ter até 880 filhotes ao longo de um ano) e, conseqüentemente, as trincheiras acabavam contando com esse inconveniente.

Alguns desses ratos cresciam muito, atingindo tamanhos consideráveis. Como haviam muitos feridos nas trincheiras, não era incomum que eles fossem atacados pelas ratazanas e, tivessem dificuldades para se proteger. Outra situação corriqueira nas trincheiras nessa estranha e desagradável relação entre homens e ratos ocorria quando os roedores se escondiam nos bolsos dos casacos dos soldados ou ainda nos sacos de dormir, causando enormes sustos, fora mordidas e infecções (o primeiro lugar que os ratos costumavam atacar eram os olhos, partindo posteriormente para o interior do corpo).

Esses ataques eram tão freqüentes que há vários depoimentos de soldados a respeito do "convívio" entre eles e os ratos, como os que seguem:

"Ratos. Havia aos milhões!! Alguns eram enormes, tão grandes quanto gatos. Vários de nossos homens acordavam e encontravam um rato se enfiando embaixo de cobertores empilhados logo ao seu lado!" (Depoimento do Major Walter Vignoles, Fuzileiros de Lancashire, Inglaterra).

"Eu não posso dormir em minha trincheira, ela está cheia de ratos. Pullman dormiu aqui uma manhã e acordou para encontrar um deles sentado em seu rosto. Eu não consigo encarar isso então eu durmo na trincheira do Newbery." (Carta do Capitão Lionel Crouch para sua esposa, sobre a vida nas trincheiras em 1917)

"Eu vi alguns ratos correndo debaixo dos casacos dos soldados, ratazanas, gordas por causa da carne humana. Meu coração ficou apertado assim que subimos para ver um dos corpos. Seu capacete caiu e rolou. O homem apresentava um rosto deprimente, com tiras de carne arrancadas; o crânio descoberto, os olhos devorados e da boca aberta apareceu um rato. " (Autor desconhecido)

"Os ratos apareciam aos milhares e viviam da riqueza da terra. Quando estávamos dormindo nas trincheiras aquelas coisas corriam sobre nós, circulavam, se reproduziam e procuravam restos de comida, com os filhotes gritando incessantemente. Não havia sistema apropriado para lidar com o lixo nas trincheiras. Milhões de latas ficavam a disposição dos ratos na França e na Bélgica em centenas de milhas de trincheiras. Durante alguns momentos da noite, podia-se escutar um tilintar contínuo das latas se movendo uma contra a outra. Os ratos as estavam vasculhando. O que acontecia com os ratos debaixo do tiroteio era um mistério, mas o seu poder de sobreviver se mantinha mesmo com as novas armas, inclusive com os gases venenosos." (Depoimento do soldado George Coppard, extraído do livro "With a Machine Gun to Cambrai").

"Se você deixasse sua comida de lado os ratos logo a atacariam. Os ratos não tinham medo. Às vezes nós atirávamos nos nojentos roedores. Mas você poderia ser punido por desperdício de munição se o sargento o pegasse." (Entrevista concedida em 1983 pelo militar Richard Beasley)

"Terra de ninguém" foi o termo usado pelos soldados para descrever o terreno entre duas trincheiras inimigas. A distância entre elas variava, mas na Frente Ocidental era, em média, de 230 metros

Era muito difícil atravessar a "terra de ninguém". Os soldados não só tinham que evitar as metralhadoras e as explosões, como tinham que ultrapassar as inúmeras barreiras de arame farpado, os detritos de material destruído ou abandonado e as crateras cheias de água e lama provocadas pelas bombas.

GÁS VENENOSO










Os gases venenosos eram conhecidos muito antes da 1ª Guerra Mundial, mas os oficiais do exército mostravam relutância em os utilizar por que os consideravam uma arma incivilizada. O exército francês foi o primeiro a utilizá-los, quando no primeiro mês de guerra dispararam granadas de gás lacrimejante contra os alemães.

Era importante ter em consideração as condições atmosféricas antes de lançar um ataque com gás. Quando o exército britânico lançou um ataque com gás em 25 de Setembro de 1915, o vento soprou contra o rosto das tropas britânicas mais avançadas provocando pesadas baixas... Este problema foi ultrapassado em 1916 quando se começou a utilizar a artilharia pesada para lançar bombas de gás a grande distância.

Uma das desvantagens do uso de gás cloro era que, ainda que provocasse a morte, esta só acontecia bastante tempo depois e, entretanto, o soldado continuava em condições de combater. Por esse motivo começou-se a usar fosgénio. Apenas uma pequena quantidade impossibilitava o soldado inimigo de continuar a combater e provocava a sua morte em 48 horas.

Foi estimado que os alemães usaram 68 000 toneladas de gás contra os soldados aliados, mais do que o exército francês (36 000 toneladas) e o exército britânico (25 000 toneladas) juntos. Estima-se que 91 198 soldados morreram em resultado de ataques com gás e 1 200 000 foram hospitalizados. O exército russo foi o que mais sofreu com este tipo de guerra com cerca de 56 000 mortos

Histórias da trincheiras

"falta-nos praticamente tudo. Aprendi cedo a dependurar o pão num arame para o pôr fora do alcance dos ratos, a dormir com os sapatos apertados, porque tentar calçá-los depois de os tirar era uma ilusão, a dormir enrolado num capote molhado, dormir 4 horas no meio de algazarra, de gritos humanos, de cheiros pestilentos, mas a dormir." (6)

"E a cada hora que passa tudo se torna mais turvo: os dias de combate, o fogo de artilharia, a morte. "A alguns passos de nós, no fundo da trincheira, jaz um corpo. É de um oficial subalterno; está semi-enterrado; só se vê a cabeça, um ombro e um braço com a mão em gancho. Está ali desde a véspera, o braço retesou e ergueu-se, e naquela mão, naquele braço, se engancham e tropeçam todos os que vão e vêm por aquela passagem estreita. Era preciso cortar aquele braço ou afastar o corpo. Ninguém teve coragem para tal" (7)

Mais além, noutro lugar, "o bombardeamento com gases tornou-se mais intenso. (...) Daí a pouco não se via senão gente sufocando, tossindo, com o nariz e as goelas queimadas e os olhos irritados lacrimejando.

- Ponham as máscaras – gritava-se." (8)

Não era possível aguentar. Vieram os motins. As deserções. As canções proibidas, como essa enigmática "canção de Craonne", que tem a música da noite, do silêncio e da chuva para dar o timbre às emoções de soldados exaustos, sem réstia de esperança no fim de uma guerra infame, numa dolorosa despedida à vida, ao amor e às mulheres.

Ao longo da guerra, caíram em combate dez milhões de homens. Muitos ficaram mutilados e doentes. Outros desapareceram no meio de lamaçais. "Era terrivelmente óbvio que dezenas de homens com ferimentos sérios se tinham arrastado até outros buracos provocados por granadas, para conseguirem alguma segurança, e agora a água que caía em volta deles, imóveis, estava a afogá-los lentamente. Não podíamos fazer nada para os ajudar». (9) Os seus corpos ficaram enterrados nesses campos calcinados, como o da Flandres. Mas ainda hoje, não sei bem porquê, florescem lá as papoulas...

Soldados portugueses nas trincheiras

(6) Florent Fels, in Voilà

(7) R.Cazals, Cl Marquié, R. Piniès, Années cruelles 1914-1918, in História da vida privada, direcção de Philippe Ariès e Georges Duby, vol.5,

(8) Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra

Causas da Guerra









Em 1914, ocorreu o Congresso de Viena, que reuniu embaixadores das grandes potências européias, com o objetivo de reorganizar as fronteiras da Europa, após a derrota de Napoleão. Assim surgiu a Confederação Germânica, que ficou dividida em 19 estados independentes, sendo os mais influentes neste campo a Áustria e a Prússia. Ambas sonhando em unificar o território alemão.


Com o crescimento econômico e industrial, surgiu a necessidade de uma unificação alfandegária. Foi o que ocorreu no Norte da Alemanha e aos poucos todos os países foram aderindo ao Zellverein e se desenvolvendo. No entanto a Áustria ficou excluída por opção da Prússica, que a via como uma ameaça à sua hegemonia. Esta, não conseguindo justificar diplomaticamente tal fato montou um estratagema militar, idealizado por Bismarck.


A Prússia conseguiu o apoio italiano e a neutralidade francesa, depois provocou à Áustria, que se viu obrigada a declarar guerra aos prussianos. Esta foi derrotada, pois precisou dividir seu exército em duas frentes: uma contra a Itália e outra contra a Prússia e por isso foi derrotada.


Com isto, formou-se a Confederação Germânica do Norte, protestante, sob a liderança de Guilherme I, quanto ao sul católico, uniu-se a França.


Para resolver este problema a Prússia usou a mesma estratégia de provocar para ser atacado. A França
sentindo-se ofendida declarou guerra e foi derrotada perdendo os territórios de Alsácia e Lorena. Com esta vitória, o Kaiser conseguiu unir os principados do sul, completando a unificação.


Desta forma a Alemanha ganhou um eterno inimigo: A França, que promete se vingar ( revanchismo Frances). Além da questão de Alsácia e Lorena, uma região rica em ferro e importante para o desenvolvimento industrial, os dois países reclamam a região do Marrocos, no norte da África, o que promove conflitos em 1911 e acaba fazendo com que a Alemanha, além de ganhar uma faixa do sudoeste africano fique com uma parte do Congo, ambas pertenciam à França.


Outra causa foi a Revolução Industrial,na qual ocorreu um aumento na produção e um acúmulo de capital. Os países europeus começaram, então, a praticar o protecionismo econômico.
Desse modo, os países industrializados produziam, mas não compravam de nenhum outro país, e a população não ganhava o suficiente para consumir todo o mercado interno. Isto provocou uma corrida por novos mercados fora da Europa. A política Imperialista vislumbrou a Ásia, a África e a Oceania,como novos mercados, implantando-se o neocolonialismo e os protetorados. Assim essas regiões ficaram divididas entre vários países europeus.


O desenvolvimento desigual doa países capitalistas, levaram países que chegaram tarde à corrida neocolonialista, como a Alemanha (unificada tardiamente) e a Itália, reivindicaram uma redivisão do território econômico mundial. Os outros países não aceitaram e iniciou-se uma série de rivalidades pelas lutas de mercados consumidores e fornecedores de matérias-primas.


No mosaico de povos iugoslavos, havia populações austríacas e do Império Austro-Húngaro. O governo russo, que alegava ser o protetor dos povos eslavos, via com hostilidade a presença da Áustria na região, apoiando a Sérvia na disputa pelos Bálcãs.


Além de tudo isso, os países estavam tomados por um forte sentimento de nacionalismo. A propaganda nacionalista se fez a partir da escola, onde se ensinava a exaltar a história da nação.

“[...] nos dois lados a guerra tinha que ser travada mediante a mobilização da opinião pública, Istoé, alegando profundo desafio a valores nacionais aceitos, como o barbarismo russo contra a cultura alemã; a democracia francesa e britânica contra o absolutismo alemão, ou coisas assim.” HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.


O estopim da guerra foi assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, pelo nacionalista bósnio Gravilo Princep.


quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Introdução








A Primeira Guerra Mundial marcou o início da longa temporada de horrores do século XX. O Avanço tecnológico e industrial permitiu que, durante quatro anos de hostilidades, muitas pessoas fossem sepultadas no fundo dos oceanos, milhões de vítimas de gases tóxicos fossem internadas nos hospitais e, não menos terrível, que muitos fossem deportados, deslocando populações inteiras para campos de prisioneiros.




“Os animais lutam, mas não fazem guerra. O homem é o único primata que planeja o extermínio dentro da sua própria espécie e executa entusiasticamente e em grandes dimensões. A guerra é uma das invenções mais importantes; a capacidade de estabelecer acordos de paz é provavelmente uma conquista posterior. As mais antigas tradições da humanidade, seus mitos e lendas heróicas, falam sobretudo da morte e do ato de matar” Enzenberger



Assim fica difícil pensar em história da humanidade sem pensar em guerras, pois foi a partir destas que muitas coisas foram conquistas ou destruídas. O que diferencia uma guerra dos outros conflitos sociais é a sua abrangência. Independente dos motivos, a guerra mobiliza toda uma sociedade, forças econômicas e capacidade intelectual.